Países estão correndo atrás de alimentos brasileiros, escreve Xico Graziano



Países que colocavam restrições na importação de alimentos do Brasil agora fazem consultas ao Ministério da Agricultura querendo abertura de mercado. A informação vem de Tereza Cristina, ministra da pasta. Essa deve ser a grande oportunidade para a agropecuária brasileira no pós-crise da economia global causada pelo coronavírus. Muitos países temem pelo abastecimento alimentar de seus povos no futuro próximo. O Brasil tem mostrado, nas últimas 2 décadas, especialmente, capacidade de produção no campo acima da de seus concorrentes. As grandes nações do mundo desenvolvido operam há meio século no limite de seu potencial produtivo, ocupando 100% de suas terras chamadas “aráveis”. É o caso dos EUA, Europa, Austrália, Japão, Canadá. No caso da China, a situação é quase dramática devido ao extraordinário, e recente, processo de industrialização e urbanização. Apenas 14,3% do território do gigante asiático se presta à agropecuária. O resto é gelado, montanhoso ou desértico. A China tem 20% da população mundial com apenas 7% das terras aráveis do planeta.

Nessas condições, para todos eles, resta apenas um caminho: intensificar a produção rural, pelo uso de tecnologia, incluindo a irrigação, conseguindo assim elevar a produtividade por área explorada. Existe, porém, um custo a ser enfrentado.

No Brasil, ambas as possibilidades existem, e se manifestam: cresce a área total de produção e, ao mesmo tempo, aumenta a produtividade por hectare. Nos últimos 40 anos, a área das lavouras chamadas temporárias, basicamente de grãos e cereais, quase dobrou. Segundo o IPEA, todavia, no período de 2000 a 2016 foi a produtividade que respondeu por 76,4% do crescimento do produto.



Daí vem o enorme potencial do agro brasileiro. A fronteira agrícola do Brasil ainda se expande incorporando solos virgens. A população se incomoda com o desmatamento. Mas, respeitando-se absolutamente o Código Florestal, existe um estoque aproximado de 10 milhões hectares de terras com elevada aptidão agrícola a ser desbravado. Significa perto de 1,6% das florestas nativas, no cerrado principalmente.

Além das novas áreas, o principal vetor de crescimento dos cultivos surge na transformação de pastagens, normalmente degradadas, em lavouras superprodutivas. É aqui que reside a grande vantagem comparativa do Brasil com relação aos demais países.

A condição tropical de nossa agropecuária permite tirar 2 safras consecutivas, no mesmo terreno, e ademais aproveitar a terra, na sequência, para o pastoreio intensivo. Esse modelo, único no mundo, se denomina iLP, integração lavoura-pecuária.

O exemplo mais comum é o seguinte: plantio da soja no final do ano, com colheita em abril-março, seguido do plantio do milho, que será colhido em maio-junho; saindo o milho, em 30 dias a pastagem, que foi semeada junto com o cereal, estará exuberante para o pastejo da boiada. Em 90 a 120 dias, o gado sai, e se retoma o ciclo. É extraordinário.

Essa agricultura tropical construída no Brasil, cujo alicerce é a produção integrada vegetal-animal, baseada em muita tecnologia, gerada nas Embrapas do país, encanta, mas também espanta, o mundo. Desse temor surgiram as barreiras comerciais, quase sempre disfarçadas de certificados sanitários, erigidas para defender o interesse dos agricultores locais.

O Brasil luta, desde a Rodada de Doha, da OMC, no final do século passado, para ter acesso a relevantes mercados agrícolas. Com parco sucesso. Agora, com medo de ficarem sem comida no prato, inverteu-se a lógica. São eles que querem abrir suas fronteiras. Correm atrás de nossos alimentos.

Épocas de crise forçam o pensamento estratégico. Em meio às desgraças, olhar longe. Lá, no horizonte, se enxerga o celeiro do mundo. Verde-amarelo.

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